#28 | O Boneco |

Sou a maior das nódoas na internet. E não só..

Já sabia que ia ser esta cegada… Pensar em mil assuntos, querer muito escrever, e no final do dia.. ficar para o dia seguinte.

Bem, mas hoje é dia.

O Dia do Boneco. É uma ofensa para o próprio ser tratado por boneco, mas chamemos-lhe assim.

Em Janeiro de 2005 fui cantar a um evento da Câmara Municipal de Santarém. Era dia 29 e acontecia a I Grande Gala do Fado de Santarém. Acharam que eu merecia o Boneco. Entre todas a mulheres que lá cantaram, fui eu quem trouxe o Boneco. O Ricardo Santos, arrecadou o Boneco reservado aos homens ao som daquele memorável “Boa Noite Solidão”. Eu cantei o “Fado Português”. Sempre a olhar para o chão. Sempre. E a expressão corporal muito aquém da expressão da alma. Fiquei tão surpreendida quanto feliz.

Não me lembro quando comecei a cantar fado. Mas lembro-me de quando comecei a sentir-me fadista.

O meu pai, sempre cantou. E escreveu algumas das coisas mais especiais que canta, nomeadamente poemas dedicados a nós, seus 3 filhos e à sua amada freguesia de Casével – Santarém. Lembro-me desde sempre das noites longas em que se cantava um ou dois fados, à capela de improviso e sem músicos.

A certa altura, já sabia ler e a minha querida prima Isabel datilografou inúmeras letras de fados e trouxe-nos em papel reciclado um repertório que daria para longos tempos. Nessa altura eram reis das audiências (entenda-se a mesa de 20 ou 30 ao domingo no Casal) o “Não Venhas Tarde” e o “Fado do Estudante”.

Nós a jogarmos ao STOP (por exemplo) na cozinha da tia Edite e o meu pai (Ti Zé ou Zé Augusto) entrar a cantar “Não venhas tarde….” Isso talvez estivesse relacionado com o facto das primas mais velhas levarem os mais novos às festas das redondezas até horas que ultrapassavam largamente os limites impostos pela moral e dos bons costumes.

A verdade é que se começarmos a falar do nosso casal, dá blog até ao final da velhice.

Hoje é o dia do Boneco. Voltemos a ele. Depois desse repertório em papel reciclado de cor castanha ficámos incumbidas, eu e a minha irmã, de aprender a rigor o “Fado do estudante”… Claro que em menos de nada já nos tínhamos apropriado da letra e terminávamos com “que eu sou doutor e tratorista”. Foi este fado que cantei a primeira vez em público. Eventualmente com 9 anos. De certeza na Comenda, em cima de um palco de paletes e com mantas mindericas na decoração.

Depois disso, só me lembro de cantar para mais pessoas da família. Aí era religioso… Não havia almoço de família que não terminasse com uns fados e eu tinha de alinhar. O repertório ia sendo a pedido.. “Oh Tailocas, havias de aprender isto” “Oh Tliquinhas, este fado era bom para tu cantares”, ” Oh Pindérica, ficava muito feliz se cantasses isto”. E eis senão quando, à semelhança de todas as adolescentes fadistas da minha geração, aprendi a Lenda da Fonte.

Foi a Lenda da Fonte que cantei na Zibreira, e é essa noite que recordo como a primeira em que me convidaram para ir cantar e a primeira vez em que fui a uma Noite de Fados com a responsabilidade de ir cantar. Aquele tempo de “tirar tons” nos intervalos, meu Deus… Como as coisas mudam… Não sei se cantei bem ou mal… Mas acho que de forma geral, gostaram… Devia ter aí uns 17 anos.

Depois só me lembro de ser praxada no meu ano de caloira quase sempre da mesma forma – a cantar.

Nesta altura, passou a ser a minha irmã a minha grande influência de repertório, que me gravava CD’s, e me deu a conhecer a Mafalda Arnauth, a Kátia Guerrreiro e a Ana Moura. E que me abriu os olhos, os ouvidos e a alma para Amália.

Entrei para a Tuna – “TUFES”.

Um dia, fui à Escola de Música “O Piano” comprar palhetas para as veteranas e encontrei a Ana Lúcia. A Ana Lúcia era do Arneiro das Milhariças e tinha sido minha colega de turma no ciclo. Eu pedi as palhetas e ela muito despachada disse à D. Fátima que eu devia era cantar. Que era Fadista. E eu muito envergonhada e intimidada já não me lembro do seguimento da conversa, só sei que saí de lá com hora marcada para ir às aulas dos guitarrristas e servir de voz guia para eles…

Professor: Pedro Amendoeira

Alunos: Bruno Mira, Tiago Silva.

Recordo-me bem da primeira aula… “Tirámos os tons” todos do que eu sabia cantar, e fui aprender mais umas coisas…

23 de maio de 2003. Portelas das Padeiras, no Cruz de Cristo. Audição dos alunos da Escola de Música o Piano. Iam fechar os alunos de Guitarra Portuguesa e Viola. E eu a acompanhá-los. Cantámos a “Lágrima” e quando desci do palco, tinha perdido a minha última avó para o céu.

Depois cantei, cantei, cantei, cantei. Por aqui e por ali, Por isto e por aquilo.

Era o máximo andar a trabalhar com o trator até o sol se por (fim de semana) chegar a casa carregada de pó e fazer aquele “Extreme Makeover” para seguir em direção à Noite de Fados. Adorava!

Cantei, cantei, cantei, cantei, sobretudo com o Tiago e o Bruno.

Depois veio o Luís Petisca e o Nuno Esequiel, igualmente na Escola de Música “O Piano”.

Cantámos uma coisa que não lembrava ao diabo. Foi a primeira e ultima vez que cantei aquilo. Mas nessa audição estreei-me com o “Tudo isto é Fado”. Por esta altura era sempre o primeiro fado que cantava.

Cantei, cantei , cantei.

Em 2005, trouxe o Boneco para casa.

Na quinta-feira passada, parti-o. Fiquei cheia de pena e mais uma série de sentimentos… Está em casa dos meus pais.

Serviu para fazer esta pequena viagem de regresso ao passado.

Deixei de cantar em 11 de Setembro de 2015.

Do Boneco até 2015 foram mais dez anos. Mas esses ficam para outro dia.

 

Para ouvir aqui

 

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#27 |o cartaz|

Ontem ligou a Helena… Não conheço bem a Helena mas posso dizer que a Helena além de linda é detentora de uma simpatia ímpar. Uniu-nos o rugby e o meu carro avariado à frente da sua casa…

Voltemos ao telefonema. A Helena ligou-me a perguntar se eu fazia um cartaz, uma imagem para a equipa feminina com o objetivo de captar mais atletas e divulgar equipa.

Disse que sim, claro, recordei logo algumas imagens que tinha encontrado na altura em que joguei e fiz uma pesquisa rápida para encontrar algumas coisas que me servissem de ponto de partida…

Comunicar a modalidade aos que não conhecem nem sempre é fácil.. E muito menos no feminino… Mas o desafio estava lançado e assim que tive um tempinho agarrei-me ao trabalho..

Enviei à Helena algumas fotografias para perceber qual o posicionamento das nossas atletas e na resposta percebi que estávamos alinhadas!

Uma das fotografias era estupenda.. Fantástica.. Pelo menos eu achei.. E acho…..

Fiz o draft e enviei a 4 ou 5 pessoas a pedir feedback…

O feedback foi muito bom quanto ao resultado e o Pedro em boa hora lembra a questão dos direitos de imagem.

Foi aqui que começou a aventura do cartaz, algumas horas de verdadeira adrenalina e uma história que tão cedo não me sairá da memória.

A fotografia era de 2010, de uma entrevistas a San Juanita Moreno, atleta da única equipa de rugby feminino em Portland à Altura.. A fotografia do Daniel Root… Ver entrevista aqui

Procurei pelo Daniel Root e encontrei o site, e resolvi escrever a dizer que gostava muito de usar aquela fotografia..

Sem grandes expectativas, enviei uma mensagem a explicar que tinha encontrado aquela fotografia e que gostaria e poder usá-la num cartaz do nosso clube.

Para grande surpresa minha, o Dan respeudeu passado pouco tempo, agradecendo o contacto, mas a dizer que sem o consentimento da Juanita, não poderia vender os direitos da fotografia.

Compreendendo perfeitamente, voltei a escrever, explicando que o nosso clube não é assim tão grande, que o alcance seria um tanto ou quanto restrito..

O Dan, respondeu novamente.. Está na Nova Zelândia, seria muito dificil encontrar a Juanita e que não tinha meio de encontrá.la. Mas mais uma vez, se a Juanita desse o seu consentimento, ele cederia a imagem!

Colocou-se a hipótese de trocar de fotografias, mas eu achei que estas respostas do Dan já valiam o esforço, achei que a própria fotografia valia todo o esforço e fui procurar a Juanita.

Não encontrei a Juanita, mas encontrei o ORSU – Oregan Sports Union, que numa pulicação de 2014 tinha uma referência à San Juanita Moreno.

Mais uma mensagem, a explicar ao que vinha, que procurava a Juanita porque gostava de poder usar a imagem dela num cartaz.

Mais uma vez, surpresa total com uma resposta pronta de que iriam transmitir a minha mensagem.

Para meu espanto, recebo pouco depois uma mensagem da própria Juanita, dizendo que por ter casado tinha mudado de nome (e por isso eu nao a encontrava). Prontamente deu o seu consentimento, dizendo-me também que entretanto iria começar a jogar rugby pelo México. Fiquei a saber que somos da mesma idade 🙂

Eu mal podia acreditar. Não consigo transcrever a sensação que foi receber aquelas respostas positivas, de pontas opostas no mundo, num tão curto espaço de tempo e que permitiram concretizar a ideia inicial.

Valeu a pena procurar a Juanita, que desejamos receber cá sem dúvida, tal como ao Dan Root que percebendo do que se tratava, se prontificou a colaborar.

No final o espírito do rugby falou mais alto, e o que queremos é que mais atletas se juntem a nós para viver a experiência desta modalidade única e tão completa.

É esta a pequena história de um cartaz, que deu a volta ao mundo e que fez estabelecer ligações positivas e para o futuro! Partilhem e apareçam!

Rugby Clube de Santarém. Esforço, Lealdade e Bravura.

Rugby (1)

 

#rugby #danroot #sanjuanitamoreno #womenrugby #rugbysantarem

#26

É hora de arrumar…. Organizar…

As coisas são só coisas…

Cada vez mais, a palavra de ordem é destralhar… Recusar, reduzir… Faz-me todo o sentido…

Se só há 10 pés cá em casa, porque há-de haver 200 sapatos? Não faz sentido…

Mas há coisas que ganham memória.. coisas que se moldam a nós.. que ganham experiência.. (será possível?)

Quando chega ao fim da linha é tempo de retirar das gavetas e dos armários para dar lugar a novas (velhas) coisas de tamanho apropriado….

Estas por exemplo… Já ensinaram três a andar…

Está na hora da reforma.. mas é difícil quando há uma pergunta sempre presente: “e se vier outro?”

#famíliaciclista

#dailycicling

#24

Hoje sobre outro assunto… Também um caminho, mas outro.

27/05/2018
“Além do Ensaio”33747779_2145870275647134_2760631907866640384_o

Hoje terminaram as passeatas da época 2017/2018.
Hoje era por isso um dia muito importante.
O fim-de-semana era grande para a família do RCS a abrir com os Veteranos a ganhar “ASAS” que também voaram alto numa bonita festa AZUL.
De Azul veste o CDUL que mais uma vez recebe o Santarém de braços abertos. Hoje eram milhares de crianças, numa competição espalhada por vários campos.
Mães, Pais, patrocinadores, insufláveis, uma verdadeira operação gigantesca numa infraestrutura bem preparada para a dimensão do evento.
Sendo a última saída foi inevitável começar a retrospectiva mental pela época, num exercício de memória e comparação entre o que éramos quando começámos este caminho e o que somos aqui chegados.
Claro está que ainda temos a nossa festa pela frente, dia 16 de junho, mas já começo a ficar com umas borboletas na barriga só de pensar que uma avalanche destes miúdos vai subir de escalão e muito provavelmente deixarei de acompanhar tão de perto as suas conquistas.
Resolvi dar a esta crónica o título de “Além do Ensaio” porque foi essa a minha maior aprendizagem, que por coincidência tive hoje oportunidade de consolidar.
Nunca fui boa atleta. Sempre tive imensa vontade, fui sempre muito empenhada, mas talento para o desporto que é bom… Zero…
Nas várias modalidades que pratiquei, umas mais a serio que outras, mas nenhuma de “carreira” aprendi a perder… Sempre tive bom perder…
Quando no Rugby dizemos que ganhar não é o mais importante, é fácil e bonito concordar. Mas vivenciar esse estado de espírito, não vai lá só com boas intenções. É algo que se aprende… Mesmo por quem tem bom perder.
Para mim, o significado desta expressão “ganhar não é o mais importante” é totalmente diferente hoje do que era no início da época, pese embora os princípios a ela subjacentes sejam os mesmos – os valores que procuramos incutir nos nossos atletas.
Efetivamente, a pressão anda sempre por perto: “como correu??” “ganharam?” “marcaste algum ensaio?”. A reacção a uma vitória é naturalmente mais efusiva do que a uma derrota… Trazer os troféus para casa é a recompensa pelos tempo de treino, pelo esforço, empenho, dedicação (a propósito, PARABÉNS aos SUB – 16 pela Taça Bowl).
Não trazer troféus, ou taças pode implicar frustração, obriga-nos a nós a pensar, repensar o que andamos a trabalhar com eles.
A crónica é longa, mas não saio daqui enquanto não disser tudo o que decorre do dia de hoje.
Além do Ensaio, está tudo o que de mais importante existe no desporto, no Rugby. Além do Ensaio está aquilo que realmente importa.
Hoje levámos duas equipas a Lisboa. Uma comigo, outra com o Pedro Fagulha.
A minha equipa perdeu os jogos todos. Estiveram empenhados, fizeram direitinho o que procuramos ensinar-lhes. Do outro lado, três equipas bem preparadas – O Caldas, o S. J. da Talha e o CDUL.
Marcaram ensaios, nós procurámos os nossos. Vimos ensaios anulados, marcámos outros. Mas o que realmente importa foi além do ensaio.
Vi-os a serem solidários, a cederem a posse de bola entre eles, a não brigarem por ser este ou aquele a sair a jogar. Vi-os a respeitarem mais o capitão.
Do lado contrário, vi em duas equipas um jogo mais individual, ensaios sem haver um único passe de bola, apenas modo TGV. Vi colegas a reclamarem “Vê lá se aprendes a passar a bola”. Miúdos a chorarem porque não tocavam na bola.
Esta dinâmica é muito além do ensaio. É o nosso grande desafio enquanto treinadores. Não travar ninguém, não deixar ninguém para trás…
O Rugby é uma espécie de Albergue Espanhol, há lugar para todos. E todos têm o seu papel na equipa.
Hoje olho para eles e tenho uma imensa alegria por testemunhar o que já cresceram… Um imenso orgulho pelos jogadores, atletas e amigos que se tornam a cada dia… A aprendizagem do jogo colectivo, de ser uma equipa.
Não são fáceis, têm muita mão de obra, mas são excepcionais. São os meus atletas, e observo cada um com atenção, admiro cada um na sua individualidade e procuro fazer o melhor por eles.
Não acertamos sempre. Erramos muitas vezes.
Mas aceitar este desafio de ser “Mister” dos SUB8, foi sem dúvida uma escolha acertada.

MTA

#23

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Voltámos há uma semana.
Tanto por escrever e por contar..
Mas o melhor de tudo.. Viver o caminho no regresso.
Demora tempo a mastigar.. Cada paisagem, cada momento. O que ficou para trás, o que encontrámos. Quem encontrámos.
A partida, a chegada.
O antes, que foi tão longo.
A dificuldade, a surpresa, a magia que quase se ia perdendo no meio de tanto blogue artigo e guia…
Os peregrinos. Eu, peregrina. A Oração. Das que foram, dos que ficaram.
O regresso e o próximo caminho. Tanto por escrever. Tanto por contar. E tanto para explorar, e tudo para viver!

#camino #buencaminho